Notícias

Quando a Coordenadora Explica… e a Realidade Observa em Silêncio

A coordenadora pedagógica tem uma missão quase divina: orientar professores a cumprir orientações que, no fundo, ela mesma sabe que muitas vezes têm pouca lógica dentro da realidade da sala de aula.

E é importante dizer:

na maioria das vezes, ela tem boas intenções.

Quer organizar, melhorar, contribuir, fazer dar certo.

No papel, tudo é lindo.

As propostas são organizadas, os tempos são perfeitos, as crianças participam felizes e a aprendizagem acontece de forma quase poética.

Na sala de aula, porém, o cenário costuma ser um pouco… diferente.

Enquanto o planejamento sugere uma atividade tranquila, o professor está tentando convencer 23 crianças de três anos de que esperar a vez também é uma habilidade socioemocional importante. Ao mesmo tempo, uma quer ir ao banheiro, outra quer a mãe, duas discutem pelo mesmo brinquedo e alguém inevitavelmente derrama água no meio da roda.

E, nesse cenário, há um detalhe importante:

a professora conhece a sua turma.

Sabe quem chora mais, quem morde, quem não espera, quem precisa de mais atenção.

Conhece o que funciona… e o que, simplesmente, não funciona naquele momento.

Mesmo assim, lá está a coordenadora pedagógica, explicando com toda a convicção do mundo como aquela proposta “funciona muito bem”.

E assim seguimos todos — professores e coordenadores — tentando equilibrar boas intenções com a prática possível.

Porque, na Educação Infantil, mais do que seguir o planejamento,

é preciso ler a turma.

E isso… nenhum documento ensina completamente.

 

Lia Rodrigues

Lia Rodrigues é professora de Educação Infantil e escritora independente. Mulher quilombola nascida no Quilombo de Santana, em Conceição da Barra, interior do Espírito Santo, cidade praiana marcada por forte riqueza cultural. Em sua escrita, aborda temas diversos, trazendo reflexões sobre a vida, superação, educação, identidade e as experiências que atravessam o cotidiano.