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Trecho do livro: Ainda temos muito o que viver

Em certa ocasião, Ivy e eu observávamos fixamente o senhor misterioso sair de sua casa sombria. Ele acendeu o cachimbo e seguiu em direção a uma estrada de barro vermelho.

Não sei se foi impulso ou curiosidade reprimida que nos levou a segui-lo. De longe, observávamos enquanto ele caminhava tranquilamente por aquela estrada, que logo se tornava escura devido à sombra da mata densa ao redor. Ser criança nos anos 80 proporcionava muitas aventuras. O risco de algo ruim acontecer estava mais associado a um ataque de animal ou a uma queda de árvore. Não havia o medo que hoje assombra o presente, onde os humanos substituíram os perigos da natureza. Duas meninas entrando mata adentro por curiosidade inocente é algo que não cabe nem na imaginação infantil da atualidade. O homem virou à direita, aproximou-se de um lago, retirou uma sacola escondida entre a vegetação, sentou-se sobre algumas pedras e começou a preparar uma vara de pescar. Após lançar a linha na água, ficou imóvel, exceto pelos olhos inquietos que acompanhavam o movimento da maré. Ivy e eu nos afastamos em silêncio. Quando já estávamos a uma distância segura, toda a tensão se transformou em gargalhadas estridentes, enquanto tentávamos entender o que, afinal, esperávamos encontrar ( trecho do livro ainda temos muito o que viver).

 

 

Lia Rodrigues

Lia Rodrigues é professora de Educação Infantil e escritora independente. Mulher quilombola nascida no Quilombo de Santana, em Conceição da Barra, interior do Espírito Santo, cidade praiana marcada por forte riqueza cultural. Em sua escrita, aborda temas diversos, trazendo reflexões sobre a vida, superação, educação, identidade e as experiências que atravessam o cotidiano.