Trecho do livro: Ainda temos muito o que viver
Em certa ocasião, Ivy e eu observávamos fixamente o senhor misterioso sair de sua casa sombria. Ele acendeu o cachimbo e seguiu em direção a uma estrada de barro vermelho.
Não sei se foi impulso ou curiosidade reprimida que nos levou a segui-lo. De longe, observávamos enquanto ele caminhava tranquilamente por aquela estrada, que logo se tornava escura devido à sombra da mata densa ao redor. Ser criança nos anos 80 proporcionava muitas aventuras. O risco de algo ruim acontecer estava mais associado a um ataque de animal ou a uma queda de árvore. Não havia o medo que hoje assombra o presente, onde os humanos substituíram os perigos da natureza. Duas meninas entrando mata adentro por curiosidade inocente é algo que não cabe nem na imaginação infantil da atualidade. O homem virou à direita, aproximou-se de um lago, retirou uma sacola escondida entre a vegetação, sentou-se sobre algumas pedras e começou a preparar uma vara de pescar. Após lançar a linha na água, ficou imóvel, exceto pelos olhos inquietos que acompanhavam o movimento da maré. Ivy e eu nos afastamos em silêncio. Quando já estávamos a uma distância segura, toda a tensão se transformou em gargalhadas estridentes, enquanto tentávamos entender o que, afinal, esperávamos encontrar ( trecho do livro ainda temos muito o que viver).
